Exposição 20/20 – Mostra coletiva - EXPOSIÇÃO ENCERRADA
31 de outubro de 2018 a 24 de fevereiro de 2019
Terça a sexta-feira: das 8h às 17h
Sábados e domingos: das 10h às 18h
*Janeiro: Terça a domingo, das 10h às 18h
Quando começamos a organizar esta exposição, decidimos, durante cinco meses, de março a julho de 2018, buscar entender como as práticas e poéticas dos artistas podem suscitar novas maneiras de se fazer e pensar a arte, que sentidos elas constroem e que narrativas se explicitam. O resultado foi um mapeamento de cerca de 50 portfólios, oriundos de trabalhos de artistas nascidos e/ou residentes de regiões diversas do estado do Espírito Santo (ES).

Nesse processo, optou-se então por apresentar 20 artistas, uma referência comemorativa aos 20 anos do Museu Vale.

18 artistas da novíssima geração e 2 mestres, aos quais a arte muito deve: o autodidata Hélio Coelho e o professor José Carlos Vilar, foram selecionados para a mostra, assim surge a exposição 20/20 - 20 anos de Museu Vale, 20 artistas do Espírito Santo.

Neste contexto, integram também a mostra os trabalhos de Andreia Falqueto, Bruno Zorzal, Elton Pinheiro, Fernando Augusto, Fredone Fone, Gabriel Borem, Jocimar Nalesso, Juliana Pessoa, Leo Benjamim, Luciano Feijão, Luiz Felipe Porto, Miro Soares, Poliana Dalla, Rafael Pagatini, Re Henri, Rick Rodrigues, Sandro Novais e Thiago Arruda. Do mesmo modo, pela travessia dos limites metropolitanos, foi possível abarcar desde os municípios de João Neiva, Marechal Floriano e Afonso Cláudio às cidades de Vitória, Vila Velha e Serra.  Por esses lastros, converteram-se importantes estratégias: os curadores puderam transitar entre entrevistas, visitas e acompanhamentos em ateliês. Interessou-nos, sobretudo, observar caminhos propostos para se discutir a arte contemporânea. Ao mesmo tempo, evitamos propor uma grande exposição temática, em favor das experiências poéticas múltiplas dos artistas selecionados. O fio condutor para articular o território expositivo e que abrigasse a pluralidade de ideias, práticas e procedências distintas desponta para uma interlocução com nossos tempos: revela que os editais, residências artísticas, bolsas de estudos, cursos de graduação em artes visuais, mestrados e doutorados teóricos aqui no estado e em vários territórios brasileiros, apresentam, portanto, uma renovação visível, que fortalece a produção das últimas gerações. Nesse contexto, o Museu Vale se insere como um eixo valoroso, unindo o nosso estado ao Brasil e o mundo.

Devemos ressaltar que, como ponto de conhecimento, o Museu Vale, ao longo destes 20 anos, constituiu-se como uma plataforma para as artes e para a cultura, aproximando substanciais protagonistas da arte contemporânea nacional e internacional, por meio de exposições, seminários, workshops, dando enorme importância à educação, a inclusão e o respeito à diversidade. Aliás, esta é uma das grandes missões dos museus: aprender, educar e entender, pois é pelo enfrentamento com a obra de arte que se anuncia a criação.

A boa produção artística contemporânea do estado do ES é um sintoma afirmativo deste momento e inspira muita confiança. A ordem dos trabalhos apresentados na mostra 20/20 não pretende elaborar um inventário relacional, mas, sim, buscar ligações entre eles, potencializando e singularizando o que lhes é particular, aquilo que os refletem em seu entorno. Tais narrativas enviesadas podem ser consideradas como travessias. Nessa perspectiva, o modus operandi de Fredone Fone, Rick Rodrigues, Rafael Pagatini e Vilar abrangem tanto o biográfico quanto o universal; o embate, o ser ação, o processo entre arte como experiência do cotidiano e eixo na fruição da reflexão de questões atuais da contemporaneidade. 

Move-se dentro dessa rede espessa toda a singularidade da produção estética de Fernando Augusto, Sandro Novais, Thiago Arruda e Luciano Feijão – uma leitura que atua como digressão da paisagem urbana, e da condição humana, sobre o olhar cotidiano na impossibilidade de representá-la. Ao mesmo tempo, no espaço limitado do suporte, linhas repetidas à exaustão tramam escrituras do tempo. Em contraponto, a goiva opera na realização dicotômica entre a permanência e a dor existencial, dentro de uma fidelidade à tradição da gravura. É um olhar para o mundo interno que se abre e se move, através da história demarcada pela rota da diáspora mundial africana; o território de recriação e ordenamento da existência. 

Nessa perspectiva, o manejo de grafite, carvão, giz, lápis, pigmentos em pó ou qualquer tipo de tinta sobre papel ou canvas – empregados por Juliana Pessoa, Jocimar Nalesso, Poliana Dalla, Andreia Falqueto, Leo Benjamim e Hélio Coelho –, em grandes e pequenos formatos, ou a construção dos objetos e assemblage – de Re Henri e Elton Pinheiro – obrigam-nos a vê-los de uma certa “distância”. Quer seja no vigor, quer seja nas indagações, novas possibilidades identitárias tomam corpo – tanto pela essência das divindades quanto pelos lugares desalojados – de temporalidade, histórias e tradições específicas, no ato de ancorar acontecimentos; naturais, ficcionais, cotidianos, ou tipografados à exaustão. O social atravessa todos os modos de vida e de presença entre sujeitos e a sua produção do cotidiano, e é através dela que estes elementos circulantes são capturados; dando-lhes novas vidas e significados. Cada trabalho busca a universalização da emoção, configura outros territórios e geografias simbólicas, vivido na e pela forte ligação com o silêncio como fonte de memória de discursos afetivos.

Na continuidade, ainda sobre o tema, como uma passagem de uma parte a outra, Luiz Felipe Porto, Bruno Zorzal, Miro Soares e Gabriel Borem vão nos posicionar sobre fronteira, deslocamento, lugar e mundo; o urbanismo, o consumo e a migração tornam-se parte um do outro, aqui, todas as diferenças e distinções indenitárias podem ser traduzíveis. Mas o fascínio pela diferença, pela alteridade, entre o aqui e o agora, o local e o global, propõem o surgimento de novas articulações. Arjun Appadurai, antropólogo indiano, nos alerta que precisamos olhar de perto para a relação entre a localidade e a subjetividade, e que deveríamos estar atentos ao elo entre o global e o local: “Será uma instância mais real do que a outra? Mas sabemos que as imagens são ideias que circulam, ainda que as pessoas não migrem”. Ademais, a arte provoca. 

Reunir essas obras no Museu Vale em seus 20 anos é também celebrar a produção contemporânea em terras capixabas, que se alicerça na construção da história da arte. Eis um convite a vários itinerários.

Curadoria 
Ronaldo Barbosa e Neusa Mendes
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